domingo, outubro 30

Depois do Realejo

1 Quimeras:

@ novembro 01, 2005 12:40 PM, Anonymous Simone disse...

Com uma agilidade incrível, motivada por um pensamento mórbido, o velho do realejo levantou-se da cama, abriu a gaiola e agarrou a ave com as duas mãos. Ignorando as profundas feridas em seus dedos causadas pelo violento bico do periquito, o velho conseguiu, num último esforço de energia, dar um derradeiro pulo em direção à ave. Enfim, agarrou-a com força e, com um sangue frio jamais sentido, não tardou a estrangulá-la. Sua culpa! A adrenalina baixou, o coração teimou em desacelerar. Sentou-se na cama, respirando com certa dificuldade. Quando se deu conta do que fez, foi tomado pelo pavor. Sua culpa!
Desesperado, o velho tentou sair em disparada para fora do quarto – mas não conseguiu. O estridente grito do pássaro ainda ecoava em seus ouvidos. Esbarrou em tudo quanto era coisa no caminho, inclusive no realejo que repousava verticalmente na parede. Tudo foi ao chão. A gavetinha do instrumento se abriu e, com isso, uma chuva de cartões precipitou-se no aposento. Milhares de destinos flutuando pelo ar. Nada definido, prá ninguém.
Imóvel, estirado no solo frio, o velho contemplou o final de sua missão com o realejo prendendo seu debilitado corpo no chão. E lá ficou até morrer mais uma vez, uma última vez. Se estivesse vivo, talvez pudesse ler o único cartão que persistia pairando no ambiente. Um cartão que, ainda num invejoso vôo, clamava por liberdade.

 

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