quinta-feira, novembro 3

Separação

Não existe nada pior do que não estar satisfeito com você mesmo ou suas atitudes.

Eu gostaria de parar de fumar, mas como, se o cigarro é o meu relacionamento mais longo e estável? Quinze anos de relação, de troca, de convivência 24 horas... Quem mais, nestes últimos 15 anos, me agüentou em todos os meus momentos felizes e tristes, neuróticos e torturantes, chatos e inconstantes, nervosos e calmos, doentes e sãos, prazerosos e amargurados, sem falar uma palavra e sem me abandonar? O "maldito" cigarro, oras!

Como largar de algo que faz parte do meu dia a dia por tanto tempo? Como simplesmente jogá-lo fora, e nunca mais lembrar? Que decisão difícil, esta. Um serviço sujo, mas que precisa ser feito. Uma dolorosa separação, que talvez doa mais em mim do que nele, mas uma definitiva separação.

Vou até a mesa, olhar para o maço, e dizer:

- Querido cigarro, precisamos conversar. Durante 15 anos, nunca discutimos nossa relação, mas, infelizmente, chegou a hora. Preciso te falar algo que está entalado na minha garganta há muito tempo, mas não tinha coragem de admitir. Você está me sufocando! Para todos os lugares que vou, preciso levar você, não consigo me livrar de você nem em lugares íntimos, como o banheiro! Assim não dá! Eu preciso de mais espaço, preciso respirar aliviado! Quero correr mais de dez minutos sem cair morto ao chão. Quero sentir o gosto real dos alimentos. Quero esquecer que já tive rinite alérgica alguma vez na vida. Quero sair para beber com meus amigos e não ficar pensando em você a cada gole. Quero conseguir tocar sax. Quero poder subir uma ladeira falando no celular sem ofegar. Quero sentir os cheiros como eles são. É, isso mesmo. Cansei do seu perfume. Cansei da sua dependência. Cansei da sua roupa. Cansei do gosto que eu fico na boca. Cansei de ser discriminado por onde eu ando com você. Eu quero minha vida de volta!

Ele continuará, ali, na mesa, olhando para mim como se nada tivesse acontecido, se oferecendo para um último carinho, um último beijo, uma última pitada de prazer... um apelo, para que nosso relacionamento continue em fumaça.

Mas eu, firme, talvez com lágrimas nos olhos, tocarei pela última vez seu corpo, e o acompanharei até a lixeira mais próxima.

As lembranças ficarão, é claro. Será impossível me desfazer do meu zippo, por exemplo. Aquele tlec para abrir a tampa, o cheiro do fluido, ah, meu Deus! Chega! Vou guardá-lo bem escondido, por uns anos. Quem sabe, mais pra frente, eu consiga usá-lo apenas para acender uma vela, uma fogueira, ou um incenso? Pode ser.

Ainda escuto uma vozinha, lá no fundo, um apelo, um lamento, um pedido para voltar. Eu sei. Algumas noites mal dormidas me esperam. Andar ofegante pelas ruas, sentindo sua falta. Mas com o tempo, eu sei que vou superar isso. Afinal, a vida continua. A fila anda. Tem sempre algo ou alguém que substitua a amarga saudade que uma separação causa a um indivíduo.

Vou caminhar, por aí, sem rumo, até esbarrar com o meu destino. Daí eu me sentirei mais forte, mais vivo, e com toda a coragem de gritar para todos o quanto eu te amo, adesivo de nicotina...

6 Quimeras:

@ novembro 03, 2005 5:41 PM, Anonymous Marcio Musciacchio disse...

mano velho, camarada, brother, parceiro....

é isso ae cara, livre-se de quem diz que te quer bem e só te quer mal, de quem te consome cada dia mais e sorri a cada escorrego seu, a cada fraqueza tua. Mande-o pra bem longe de ti, a vida não é tão cinza como vc vê por de trás da fumaça dele, ela é colorida, alegre, mesmo q as vezes achamos q não!

ótimo texto, adorei, primeira vez q vim ver teu blog e sabes o quanto sou fã do q escreves...

ps. no paragrafo: "As lembranças ficarão..." onde deveria estar: "Vou guardá-lo" está: "Vou guerdá-lo"...
cara, desculpa a correção, mas o texto está muito bom pra passar esse pequenino erro de digitação...

abração e to esperando vcs em casa, parceiro!!!

 
@ novembro 03, 2005 6:04 PM, Blogger André Lasak disse...

Valeu, meu amigo!

Você sabe, né? Por mais que a gente tente revisar nossos textos, sempre passa alguma coisinha... se quiser, eu te contrato como revisor... hehehe

Valeu pela dica! já vou corrigir.

Abração e 'brigado de novo!

 
@ novembro 04, 2005 2:41 AM, Anonymous Leitinho disse...

Cara, fiquei pensando se vc usou o lance de "relação" para deixar o texto bacana (deu certo) ou se pra vc é uma relação mesmo.
Presumo (como um presunçoso nesse momento) que o correto seja a segunda opção (ainda que não saiba disso e tenha feito o texto seguindo a linha da primeira opção).
Eu nunca fui viciado em cigarros, não sei como é isso, mas acompanhei bem de perto o drama de alguém que largou o vício (namorada).
Mas nem é com base nisso o que vou dizer.
O primeiro passo é: desligue o campo afetivo.
É só um cigarro, um dispositivo que libera nicotina e outras substâncias tóxicas no seu organismo e cria dependência. Não é uma relação, não é uma menina, não tem corpo, não tem porra nenhuma.

 
@ novembro 04, 2005 11:49 AM, Blogger André Lasak disse...

Fala, meu filho!

Sinceramente, criei o texto baseado na sua primeira opção. Você me abriu os olhos para uma outra que eu nem imaginava, mas talvez seja também um pouco verossímil...

Eu sei que o cigarro é apenas um vetor, é um "it" e não um "she", mas em alguns casos, ele é um companheiro psicológico em situações extremas. Nestes casos, ele é relação. É uma "muleta", ou "chupeta", como insistem os psicólogos, mas funciona.

Obrigado pelas dicas! Abração!

 
@ novembro 04, 2005 4:07 PM, Blogger Tahkren disse...

Pronto, comentei.
Agora vê se para de falar que eu nunca falo nada no teu blog!

 
@ novembro 08, 2005 9:19 AM, Anonymous Simone disse...

É... as relações terminam, até as mais duradoras...
Sempre um recomeço... e sempre pra melhor!
beijo e se cuida

 

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