sábado, agosto 26

O Desabafo de Oz

Não há Lugar Melhor que o Lar

Wizard of Oz
We're off to see the Wizard, The Wonderful Wizard of Oz.
You'll find he is a whiz of a Wiz! If ever a Wiz! there was.
If ever oh ever a Wiz! there was The Wizard of Oz is one because,
Because, because, because, because, because.
Because of the wonderful things he does.
We're off to see the Wizard. The Wonderful Wizard of Oz


Hoje eu revi este clássico. E hoje, eu comecei a acordar para algumas coisas.

Ouvindo a música acima, regressei ao meu Caminho de Santiago. Lembrei-me dos meus amigos peregrinos, que me acompanharam, e cantaram comigo este trecho, incansavelmente, em diversos momentos. Estávamos numa estrada de pedras, não de tijolos amarelos, mas levávamos todos os elementos deste filme conosco.

Levávamos dentro de nós um espantalho, perdido em pensamentos, atrás do seu "cérebro", que podemos aqui chamar de sabedoria. É, aprendemos muito, ganhamos muito conhecimento e o aplicamos com sabedoria em diversas situações. Lá e, provavelmente, em diversos momentos do resto de nossas vidas.

Levávamos dentro de nós um leão covarde, pois não sabíamos o que nos esperava a cada acostamento de estrada, se um caminhão desgovernado ou uma papoula vermelha. Mas andávamos, sempre em frente, com medo de chegar ao fim do Caminho, mas com coragem de enfrentar a Catedral de Santiago de Compostela em sua total magnitude.

Levávamos dentro de nós um homem de lata, pois tínhamos nossos sentimentos confusos e intensos, nos amávamos como uma família, como pessoas perdidas num limbo à procura de seus "eus", mas com um altruísmo acima de qualquer sexo, credo, raça, classe social ou preferência sexual. Todos éramos iguais, cada um dentro de sua ilha, mas um arquipélago móvel em constante deriva.

E, principalmente, levávamos dentro de nós uma Dorothy, uma pessoa admirada com todas as novidades de um país estranho, uma cultura diferente, uma situação inesperada, mas que mesmo querendo passar o resto de sua vida por ali, não se esquecia em nenhum momento da sua família e amigos e amores deixados lá, em suas casas, seus países natais.

Mas daí regressamos. Deixamos para trás um mundo de felicidade e cor e voltamos à nossas casas, à nossa rotina, ao preto-e-branco.

O filme O Mágico de Oz nos mostra que é fadado ao esquecimento. Ele, em sua moral, te priva de ir atrás do novo, do vôo livre em direção à sua liberdade, à sua sabedoria, e te entoca dentro de seu lar, para você viver a sua vidinha de sempre, sem ter que atravessar o portão da rua para os seus desejos mais profundos.

Não sei se fui um pouco radical no que disse. Aceito esta opinião como verdade, mas mesmo assim, gosto muito deste filme, e aceito outras opiniões como verdade.

Uma outra delas, é o que vem acontecendo comigo. Eu estava aqui, em minha rotina, perdido, com vontade de sumir, e realizar um sonho de mais de oito anos, e acordei. Eu fui realizar o meu sonho. Atravessei a pé mil quilômetros, seguindo flechas amarelas numa estrada ora de terra ora de asfalto, mas com pedras de todos os tamanhos e castigos. Vi todas as cores novas de uma cultura nova para mim, conversei com moradores do primeiro mundo, vi que pobreza e miséria existem até por lá, senti dores atrozes nos pés, nos ombros, nas costas, mas segui sempre em frente, andando. Keep walking, mesmo eu preferindo uma cachaça.

E voltei pra casa, para o meu canto, minha família, amigos e amores. Ao preto-e-branco. E me perdi. Me recolhi em minhas saudades, em minhas lembranças e meus andares, e desprezei a rotina. Entrei em depressão. Não conseguia sair de casa. Ao dormir sonhava que caminhava, e acordava cansado. Me destruí em mim mesmo. Implodi-me. Mas descobri uma coisa, que é verdade para mim. Ao conhecer o desconhecido, dei-me o doce que qualquer criança mais adora, e o quer a toda hora. Me dei a liberdade de ir e vir, quando bem me entender, tendo-se subsídios financeiros para tal, é claro. O dinheiro move o mundo. Ainda. Precisamos dele, infelizmente, para alcançar nossa felicidade.

Mas eu sinto que estou voltando à tona. Estou nadando novamente à superfície da minha vontade de trabalhar, da minha vontade de sair de casa, da minha vontade de viver a minha vida. Não quero ganhar mais teias de aranha em minhas costas. Eu quero e preciso voltar a caminhar. E vou caminhar. Seja este caminho o de Santiago ou o da minha vida.

Não há nada melhor que o lar. Desde que você descubra qual ele é, e vá atrás.

The End

18 Quimeras:

@ agosto 27, 2006 1:24 PM, Blogger Bruno Charles Pz! disse...

Muito bom.

Mas como já havia dito Dorothy. "Não há lugar melhor como o nosso lar."

 
@ agosto 27, 2006 3:52 PM, Anonymous Ana Paula disse...

olá!!!!! adorei a intertextualidade que vc fez!!!! posso imprimir para usar com meus alunos ????

 
@ agosto 27, 2006 4:42 PM, Blogger André Lasak disse...

Claro! Desde que você mencione a fonte e o link do blog, conforme diz a licença do Creative Commons:
http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5/br/

 
@ agosto 27, 2006 5:11 PM, Anonymous ariane disse...

Olá amigo!!!
muito obrigada pelas correções, na verdade eu sou uma sagitariana desligada e desastrada :),
ao contrário de você, geralmente não faço revisão, publico de qualquer forma,muitas vezes desprezo acentos e concordâncias...
vou ficar mais atenta,
fique à vontade quando eu precisar de outras correções ;)
beijos

 
@ agosto 27, 2006 5:46 PM, Anonymous Dani Vidal disse...

Fantastico esse post The Wizard of Oz!!
Texto grande mas muito agradavel...
me identifiquei bastante!
Parabens.. já vou deixa-lo aqui no meu link de favoritos.
=D

 
@ agosto 27, 2006 6:00 PM, Blogger Nanna disse...

Não há nada melhor do que descobrir que há uma vida inimaginável dentro de nós... Encontrar o rumo, essa é a grande sacada do ser humano... Boa sorte pra você, na sua caminhada... :))

Adorei isso aqui, e voltarei, sempre...
Posso te linkar?

Beijinhos...

 
@ agosto 27, 2006 7:27 PM, Blogger Jeanne disse...

O regresso é complicado, porém inevitável. mas é válido, quando sabemos que é temporário. Novas caminhadas, novos tropeços, novos caminhos. As idas e vindas na verdade nos descobrem, mas nem sempre gostamos daquilo que vemos... Gostaria de saber um pouco mais sobre essa tua viagem. até mais

 
@ agosto 27, 2006 10:10 PM, Blogger as_estrelas disse...

que legal...

 
@ agosto 28, 2006 1:22 PM, Blogger Palermo disse...

Sem palavras, Dé!
Texto perfeito!

 
@ agosto 28, 2006 11:24 PM, Blogger Fabio Ciccone disse...

Aê, André, paguei um pau, muito bom!!!

 
@ agosto 29, 2006 2:17 AM, Blogger Mendoscopia disse...

Vi seu comentário no poema da minha parceira de blog e pensei "quem é essa pessoa?". Entro no seu endereço e me deparo com esse texto. Pensei "é grande, vou deixar pra depois". Voltei. Li. Tive que entrar também no outro blog para entender o que o Caminho de Santiago tinha a ver com a história. Não pude deixar de escrever. Algumas frases em especial me chamaram a atenção "Não quero ganhar mais teias de aranha em minhas costas."
Senti mtas coisas lendo esses textos, nessa frase tive a sensação de ver um rosto desanimado, mas lutando contra si mesmo e contra os seus medos. Senti luta, mtas incertezas, mas em busca. Acreditei. Espero que consiga caminhar até o seu lar, até aquele espaço que o reconheça como SEU. E sei que pode parecer balela, mas desejo sorte, amor e fé! Acho que vai precisar.

Bjos,
Jú Pestana

 
@ agosto 29, 2006 10:15 AM, Anonymous Kathia disse...

Muito bom, gostei muito!
A verdade é que todos nós buscamos um caminho!
O que não fazemos é continuar na estrada para que esse caminho seja repleto de felicidades, amores, esperanças e sucessos...
O que sempre fazemos? Arrumamos
um lugarzinho nessa estrada e estacionamos.
E isso não pode acontecer, temos que estar sempre em busca de um objetivo, mesmo que ele seja impossivel.
Porque o impossivel só existe dentro de nossa imaginação!
Então tudo posso e tudo farei em busca de uma vida melhor! Porque o beneficiário sou mesmo!!!
bjs

 
@ agosto 29, 2006 11:23 PM, Blogger Tahkren disse...

É isso aí Andrézito.
Botou pra fora, agora é continuar.

Aproveite as pegadas deixadas sem se esquecer que o caminho não acabou.

Comentário de número 13 pra dar sorte.

 
@ setembro 01, 2006 9:29 PM, Blogger Ariane disse...

Que bom que voltaste a caminhar...
Na verdade achei este texto gnóstico,de uma profundidade extrema!
Reconheço que fiquei com uma "invejinha branca" desse seu literal caminhar, mas sei que um dia realizarei a minha tão sonhada caminhada(machu pichu)
enfim amigo, o preto, o branco e o cinza também são "cores" sem eles parte do mundo não seriam pintados...
beijos

 
@ setembro 04, 2006 9:30 PM, Blogger Künzang Yeshe disse...

Parabéns camarada Lasak pelo excelente conteúdo do seu blog.
Mas me resta uma pergunta:
Eu lálio. Tu lálias?

Um cordial abraço.

 
@ setembro 19, 2006 1:31 PM, Anonymous Anônimo disse...

Também tú? Pergunto-me eu...

Pois é! Este regresso é, sem dúvida, e mais com o passar do tempo, um coisa medonha e irreversível (?)...

Chego à Lisboa, ainda com o disco do Carlos Nuñez (comprado à última da hora antes de atravessar a fronteira e chegar a terras lusas...), por desembalar...

E chego ao carro e toca a ouvir o disco...

Que bonita cidade a que eu vivo! Que bem que me sinto ao regressar! Vivi a experiência humana mais intensa da minha vida (como diz o meu amigo Gui que agora deve estar a chegar a Santiago, pelo caminho que fizémos...) e tudo, ainda mais com o disco a tocar no carro, parecia mágico! Que loucura! Estou mesmo bem!!! Isso tudo é mágico! O caminho transformou-me para sempre! Agora nada me detém com esta energia que trouxe de lá! Tudo se vai resolver de outra forma, pensava eu....

Digo-te uma coisa amigo Bin Andre..., a volta é mais dura do que poderíamos imaginar... MUITO DURA.

Passaram-se estas poucas semanas desde que estamos de volta ao nosso lar (falo do interior, sobretudo, da impressão diária da vida que levamos...) e o Caminho, apesar de extremamente forte e presente, é comido a cada segundo por esta existência profana (isto do dinheiro e da cidade e dos carros e das coisas....). Mas não escapa! Trago com toda força o Caminho dentro de mim!

Mas tento, como tu, entender a pergunta que me segue assolendo desde então: Mas porque raio tenho eu que estar a viver isto?

E pronto, lá me lembro do caminho... E sei que é assim... Que temos que seguir neste fog tempestuoso dos nossos dias, sem termos mesmo que chegar a "Santiago"...

Sim.... eu sei que parece, sobretudo para quem não esteve lá, connosco, o dia do desespero declarado.

Mas não. Há a experiência de lá ter estado e essa "revolta" do meu interior, só existe (desta forma...) por lá ter estado.

E sei.

Sei mesmo André, estamos e seguimos no nosso caminho como lá...

Sei também que aí em São Paulo, do cinza e mesmo de Lisboa clara de luz, não temos as cores das nossas almas lavadas de amor em cada instante. É esse o nosso desafio. Pelo menos o meu.

...

Termino estas palavras que, nem sei se boas nem sei se más, com as lágrimas felizes de quem um dia partillhou, também contigo, a aventura de seguir cada passo em direcção ao nosso momento presente.

É agora a nossa chance André! É agora!

BOM DIA COM ALEGRIA! AMIGO!

Maurício Umann

 
@ abril 20, 2007 10:18 PM, Anonymous Fábio disse...

André, acho que comigo aconteceu o contrário.
Tive uma vontade imensa de fazer o Caminho de Santiago, mas por questões financeiras não pude ir. Passado alguns meses, entrei em depressão com sindrome do pânico e a minha maior vontade era de sumir, sair da rotina, esquecer do mundo, olhar outros campos, mas não fiz nada disso.

Hoje estou bem melhor, nada de crises, nada de depressão, nada de nada... mas a vontade de fazer o caminho só cresce a cada dia.

Ótimo Post!
Abraços

 
@ junho 20, 2007 9:19 AM, Anonymous Anônimo disse...

Tb fiz o caminho, foi maravilhoso, experiência fantástica, que procuro vivenciar todos os dias da minha vida com alegria, conversando com os amigos, peregrinos ou não, aproveitando as oportunidades para curtir a vida, minimizando assim os possíveis tons de cinza que o meu di-a-dia pincela na minha ainda bem colorida tela mental.

Gde beijo, ultreya!!!!

Valesca Peres

 

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