domingo, dezembro 3

Um Ano sem o Vô Chicão

Eu e o Vô Chicão - Jan/2004
Franz Lasakosvitsch (13/02/1919 - 03/12/2005)


Você foi o único avô que eu conheci, portanto, valeu por dois.

Você, que sempre dizia que nunca mais assou um carneiro por minha causa, pois torrou uma peça maravilhosa no forno, ao esquecer de desligar o fogo para me ver na maternidade.

Você, que com a sua "mão pesada" me transformava numa sanfona, quando criança, e era tão "delicado" com os movimentos, que meus joelhos sempre batiam doloridos na minha testa.

Você, que mesmo não tendo estudos ginasiais ou superiores, sabia exatamente qual peça mexer numa máquina, para que ela cuspisse 10 mil parafusos em vez de 2 mil por minuto.

Você, que mesmo não sabendo a física em sua teoria, sabia me explicar como funcionaria um moto-contínuo, caso descobrissem este maravilhoso engenho.

Você, que inventou o "A" de pendurar samambaia, o quebra-nozes duplo com bandeja, o suporte de vara de pesca para barco ou superfície de terra ou areia, foi fantástico, mas ingênuo a ponto de dividir com "amigos" suas descobertas antes de patenteá-las.

Você, que a pedido da Tranquillo Gianini, inventou uma maneira de evitar que as cravelhas de madeira quebrassem, desenvolvendo um "T" de metal revestido em madeira (ou plástico, mais adiante), que é usado até hoje, foi humilde em pedir como pagamento alguns cruzeiros e um violino de estudo para crianças, para presentear suas filhas.

Você, que todos os domingos eu encontrava no porão, bebericando sua "farmacinha" e inventando peças pesadíssimas em chumbo, me deixava honrado quando pedia para eu procurar a ferramenta ideal para aquele momento crucial da invenção.

Você, que mesmo com Alzheimer, me deixou ser a última pessoa que você chamava pelo nome correto, ou que lembrava da fisionomia de prima. E mesmo não lembrando mais quem eu era, olhava pra mim com uma cara de lembrança, seus olhos brilhavam, e me perguntava: "mas eu te conheço daonde? Eu gostei muito de você, veja se aparece aqui mais vezes!"

Você, que foi e é meu herói, faz muita falta aqui. É triste chegar na sua casa e não te encontrar mais no porão. É triste, não poder te dar um abraço apertado, e ouvir você reclamar para que eu tire a minha barba horrível.

Mas são felizes as lembranças do seu sorriso, como o que está aí em cima, na foto. É isso que me deixa ainda feliz, mesmo com essa saudade, que é o pior tipo de saudade existente. Aquela que não tem jeito nenhum de ser matada. Sou espírita, vô, sei que você está aí, esperando pacientemente a hora que eu aparecer por aí pra me dar um abraço. É isso que me deixa tranqüilo, pois mesmo que demorem décadas e décadas, nos encontraremos e nos abraçaremos fortemente.

Te amo, vô. Um beijão do seu neto primogênito, que sempre ganhou e ganhará aquela disputa infantil pra saber quem ama mais o vovô...

7 Quimeras:

@ dezembro 03, 2006 8:38 PM, Blogger Tahkren disse...

Lasak, Lasak...

Abraços.

 
@ dezembro 03, 2006 9:49 PM, Blogger Aline disse...

E dois anos sem a minha amada ´vó Teca.

Emocionada fiquei.

Um beijo.

 
@ dezembro 03, 2006 10:57 PM, Anonymous  disse...

Deveras intenso... denso... agudo... forte... atemporal... brotados de um "inconsciente plenamente consciente..."

Verdadeira abundância de memórias, rica em detalhes, completa e absoluta, e que hoje tomou a forma de 'Homenagem', mas que, muitas vezes, nos visitam nos momentos de maior aperto, dor e saudade...

E como relatou, atualmente um herói inacessível, mas tenho convicção de que sempre presente!! E podes estar certo de que realmente paciente, aguardando o 'tal dia' enfim chegar...

Compartilhei de algumas destas "passagens", e posso atestar que eras, ao menos, aquele que mais expressava excepcional afinidade, verdadeira devoção e amor infindos para com este "vovô tão querido...!!"

PARABÉNS PELA BELÍSSIMA DEFERÊNCIA!!! ;)

Beijos 1000, querido! Fique bem!

JOJÔ

 
@ dezembro 04, 2006 12:45 AM, Blogger A Caravana do General Cluster disse...

Também só conheci uma avó, que valu por duas, e pelos avôs que tb não conheci...tinha sempre guaraná pra mim na geladeira, porque uma vez eu inventei que gostava, como desculpa pra visitá-la (tive que tomar por anos)...paz.

 
@ dezembro 04, 2006 10:09 AM, Blogger A czarina das quinquilharias disse...

...lindo, lasak.

 
@ dezembro 05, 2006 2:06 AM, Blogger Juliana Pestana disse...

Oh homenagem mais linda!!!

A gente guarda no coração o que foi bom e segue mais feliz por ter vivido assim. O amor é eterno, o corpo é efêmero.

Bjos mil.

 
@ dezembro 08, 2006 4:04 PM, Blogger Nanna disse...

Emocionei-me ao ler seu amor...

A saudade que sentimos é transição até o próximo encontro... É lição de casa pra vida vindoura...

Um beijo, ídolo.
;)

 

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