quinta-feira, outubro 1

Vota Queu Conto #2 - Resultado

Vamos ao texto da segunda votação, que resultou no início #6.



De Encontro ao Destino

Mamãe deveria ter me ouvido... Papai também. De todos os meus erros, aquele era irrecuperável. Muitos anos se passaram até que eu tomasse coragem de pôr meus pés em Montes Teus novamente. Foi uma grande metamorfose: deixei a barba, mudei o corte de cabelo, tomei sol, alterei meu nome no RG. Eu estava irreconhecível. Vendi tudo o que tinha. Com o dinheiro, comprei um carro e peguei a estrada rumo ao meu destino.

Destino. Tudo aquilo que você não espera que vá acontecer algum dia destes. Mas acontece. Ponderei todos os anos que se passaram. Lembrei do meu falecido irmão, o primogênito, o queridinho, o herói da nação, o grande desgraçado que ganhava toda a atenção e carinho de todos, enquanto eu era apenas como um papel de parede rasgado. Todos sabem que o rasgo está lá, mas ninguém se importa em arrumá-lo. Eu era ninguém. Só deram conta da minha existência quando o primogênito, o queridinho, o herói da nação, o grande desgraçado que ganhava toda a atenção e carinho de todos, morreu atropelado por um trem de carga que descarrilou. Luto profundo. Toda Montes Teus abarrotou a igrejinha do padre Alonzo. E o cemitério. O prefeito deu cinco dias de luto. A cidade parou. Ninguém saía de casa. Ninguém andava nas ruas. Cinco noites iluminadas à luz de velas.

Ninguém deixou de participar. Eu, como já era ninguém, fui a exceção. Passei uma semana vagando pelas estradas vizinhas, de cidade em cidade, conhecendo pessoas e as novidades do mundo. Quando retornei que notaram a minha existência. Foi aí que tudo mudou. Tentaram, de todas as formas, me transformar em pelo menos uma sombra do que foi o primogênito, o queridinho, o herói da nação, o grande desgraçado que ganhava toda a atenção e carinho de todos. Desde o início eu avisei que isso era inútil, além de extremamente estúpido. Desde o início insisti aos meus pais que aquilo era loucura. Eles nunca iriam recuperar em mim tudo o que ele representava. E não recuperaram. Dia a dia, lamentavam a falta de Irineu - é, o primogênito e tudo o mais tinha um nome -. Dia a dia, erguiam as mãos aos céus praguejando o por quê de Deus tê-lo tirado de suas vidas, e não a mim.

Mamãe deveria ter me ouvido... Papai também. Naquela noite chuvosa, algo poderoso acordou dentro de mim. Uma fúria tomou conta de cada músculo do meu corpo. Minha voz ganhou proporções assustadoras. Com uma marreta, dei cabo de tudo o que me incomodava dentro daquela casa. Sem pestanejar ou olhar para trás, fugi. Com a roupa do corpo tomei o último ônibus rumo à liberdade. Desde então, pesadelos diários importunavam meu sono e minha sanidade. Tentei de todas as formas encontrar um bálsamo para esta tortura, mas nada adiantava. Dez anos depois cheguei à conclusão que deveria voltar a Montes Teus para exorcizar todas as minhas agonias. Aquela seria a minha última chance. Um último passo para trás, antes do abismo da loucura. Foi uma grande metamorfose: deixei a barba, mudei o corte de cabelo, tomei sol, alterei meu nome no RG. Eu estava irreconhecível.

Cheguei em Montes Teus bem cedo. Parece que nada mudara por aqui desde minha fuga. Puseram ao chão a igrejinha do padre Alonzo e construíram uma de verdade. Só isso. Reconheci, na alameda, aquele velho casebre. Minha casa estava de pé, ainda. Mal podia esperar para bater naquela porta. Meu coração palpitava. Uma gota de suor gelado irritou meu olho esquerdo. Eu tremia em todas as minhas terminações nervosas. Criei coragem e bati. Silêncio. Bati novamente. A porta pôs-se a abrir. O sol revelou um casal de velhos assustados, que me olhavam com curiosidade. Comecei a falar:

- Pai? Mãe? Fugi por dez anos para provar que eu nunca seria igual ao Irineu. Mas de agora em diante, prefiro que não me chamem nunca mais de Maria Rita.


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4 Quimeras:

@ outubro 01, 2009 10:35 AM, Blogger A czarina das quinquilharias disse...

ficou mto bem escrito lasak!
parabéns!

 
@ outubro 01, 2009 10:58 AM, Blogger Takren disse...

Boa!
Ficou show Lasak
:))

 
@ outubro 04, 2009 12:13 AM, Blogger Jeff, The Publisher disse...

Bom dia cara, muito bom alguns de seus textos, da uma olhada no meu blog é sobre arte independente, se vc gostar me manda algum texto para eu postar lá, com os devidos creditos e link pro seu blog claro!

Jefferson Navarim
http://www.edenpublisher.blogspot.com/

 
@ outubro 04, 2009 11:58 AM, Blogger Jay disse...

Amo encontrar blogs assim. Adorei o texto, parabéns.

 

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